quinta-feira, 29 de outubro

Sinaceg: IA amplia vigilância nas rodovias e abre debate sobre educação no trânsito

A inteligência artificial começa a ampliar de forma significativa a capacidade de fiscalização nas rodovias brasileiras.

Câmeras já conseguem identificar uso de celular ao volante, falta do cinto de segurança e outras infrações, permitindo autuações sem abordagem do motorista.

O avanço traz uma questão que vai além do número de multas aplicadas: como transformar a enorme quantidade de informações produzida por essa vigilância em prevenção de acidentes e educação no trânsito?

Em São Paulo, sistemas instalados em diferentes concessões já produziram milhares de registros.

Segundo levantamento publicado pelo portal Estradas, câmeras da Renovias registraram 18.727 infrações entre outubro de 2024 e setembro de 2025.

Na Rota das Bandeiras, a tecnologia contribuiu para 1.136 multas apenas em abril e maio deste ano.

Na Ecovias Raposo Castello, foram identificadas 2.316 infrações no primeiro mês de fiscalização, iniciado em agosto.

A Resolução 909/2022 do Conselho Nacional de Trânsito permite a fiscalização por videomonitoramento, desde que a via esteja devidamente sinalizada e a infração seja constatada por autoridade ou agente competente.

O presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, afirma que comportamentos que colocam vidas em risco precisam ser fiscalizados, mas considera que a tecnologia oferece uma oportunidade que não deveria terminar na autuação.

“Não somos contra fiscalização. Quem usa o celular ao volante, deixa de colocar o cinto ou assume uma conduta perigosa precisa responder por isso. O que não podemos é transformar uma tecnologia tão poderosa apenas em uma máquina de produzir multas. Cada imagem captada também é informação sobre como as pessoas estão se comportando na estrada. Precisamos transformar essa vigilância em educação, prevenção e segurança.”

A possibilidade de acompanhar continuamente o fluxo de veículos produz uma quantidade de informações que antes não estava disponível. Além de registrar uma infração individual, sistemas inteligentes podem revelar comportamentos recorrentes, horários de maior incidência, locais críticos e situações que elevam o risco de acidentes.

Esse conhecimento pode subsidiar campanhas educativas mais direcionadas.

Se milhares de motoristas são flagrados usando celular, por exemplo, os registros permitem identificar onde e quando essa prática é mais frequente e desenvolver ações específicas para enfrentá-la.

A mesma lógica pode ser aplicada ao uso do cinto, ao transporte de crianças e a outras condutas perigosas.

Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg, considera que esse deveria ser um dos principais ganhos da incorporação da inteligência artificial às rodovias.

“É evidente que quem dirige usando o celular ou não coloca o cinto precisa ser fiscalizado. Mas não podemos apoiar uma indústria da multa e da punição como se aumentar o número de autuações fosse, sozinho, sinônimo de segurança. Se a tecnologia consegue enxergar milhares de comportamentos errados, ela também está nos mostrando onde precisamos educar. Esse conhecimento tem que voltar para o motorista antes que o erro termine em acidente.”

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A Polícia Rodoviária Federal também vem ampliando experiências com novas tecnologias. Em março deste ano, a instituição anunciou testes de soluções de inteligência artificial em rodovias federais, incluindo reconhecimento de placas, identificação de infrações e geração de alertas em tempo real.

Para uma categoria que tem a estrada como ambiente permanente de trabalho, a discussão é especialmente relevante.

O Sinaceg representa mais de 5 mil profissionais ligados ao transporte de veículos e acompanha questões relacionadas à segurança e às condições das rodovias brasileiras.

Galdino avalia que os resultados da inteligência artificial não deveriam ser apresentados apenas em quantidade de infrações detectadas.

A redução de comportamentos perigosos ao longo do tempo também pode funcionar como indicador da efetividade da tecnologia e das ações educativas decorrentes dela.

“Se hoje uma câmera registra mil motoristas cometendo determinada infração, nosso objetivo deveria ser fazer esse número cair amanhã. Não porque deixamos de fiscalizar, mas porque conseguimos mudar comportamento. Esse é o processo educativo que uma tecnologia dessa dimensão permite. Multar quem coloca vidas em risco é necessário. Fazer com que cada vez menos pessoas assumam esse risco é muito melhor.”

A inteligência artificial tornou possível enxergar muito mais do que acontece nas rodovias.

O desafio agora é fazer com que esse olhar cada vez mais preciso seja usado não apenas para registrar a infração, mas para evitar que ela se repita e termine em acidente.

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