Neste fim de semana e feriado, dias 10, 11 e 12 de outubro, o Espaço Multiuso do Parque Linear da Kennedy sediou um evento inédito em São Caetano: o Recria Sanca – Festival de Moda Circular.
O evento, promovido pela Prefeitura de São Caetano, por intermédio da Secretaria Municipal de Cultura (Secult), reuniu 12 brechós selecionados por edital para a exposição e venda de artigos de vestuário, calçados e acessórios second hand (segunda mão), além de artigos customizados e reciclados.
Além da exposição de produtos, o evento contou com oficinas de produção de acessórios com resíduos têxteis, ministrada pelo Sesc; oficinas de reciclagem pela Casa do Artesão e palestras e rodas de conversa voltadas a estilo e combinação de peças, ensinando como se vestir bem com os itens já presentes no guarda-roupa.
A consultora de estilo Grace Kelly, por exemplo, falou sobre combinação de peças e harmonização de cores; as expositoras Alessandra Sunao e Rita de Cassia Sartori falaram sobre desapego dos excessos e a história das peças presentes no guarda-roupa, incentivando o público presente a buscar um estilo pessoal sem o apelo do consumismo.
Para a secretária de Cultura Camila Zanon, mais do que peças de vestuário o evento pioneiro permitiu a aquisição de conhecimento acerca de um novo conceito de consumo, mais sustentável e econômico.
Por isso, o evento já abriu com uma palestra: a de Izabela Bérgamo, consultora de economia criativa e gestora do programa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) “Crie Moda Autoral”.
Aos expositores e público presentes, a consultora do Sebrae lembrou que os brechós passaram por uma substancial transformação no modelo de negócio: no lugar de locais onde se juntavam peças velhas e malconservadas, entraram lojas modernas e agradáveis, com artigos escolhidos de forma cuidadosa, com qualidade e estilo únicos.
Hoje, muitas pessoas estão trocando as grandes magazines pelos brechós. É o caso, por exemplo da técnica em segurança do trabalho Maria de Fátima Pereira, 62 anos. “Acho que 60% das roupas que tenho foram adquiridas em brechós”, calcula.
No Recria Sanca, ela foi à procura de uma bota, item de inverno que já começa a desaparecer das lojas, mas ainda pode ser encontrada em vários brechós. “Estou me preparando para viajar para Portugal e vou precisar de um calçado para o frio”.
Enquanto procurava a bota, ela já havia adquirido uma mochila com aspecto de nova por 35 reais e um tênis por 20.
A esteticista Vanessa Serafini, moradora do bairro Oswaldo Cruz, aproveitou o evento junto com o marido Allan e o filhinho recém-nascido para renovar o guarda-roupa.
Mãe do Matteo há apenas 45 dias, ela buscava roupas confortáveis e práticas para essa nova fase da vida.
“Aqui a gente encontra roupa de qualidade que não se consegue comprar em lojas”. Já havia adquirido 12 peças de roupa e, enquanto conversava com a reportagem, o marido acabou encontrando mais uma camisa — que ela levou também.
“É uma questão de inteligência financeira”, destaca a professora de Educação Física Beatriz Pereira Costa, 39 anos. “Você adquire roupas de boa qualidade com melhor preço”. Ela destaca, também, o compromisso social da escolha. “Enquanto há empresas que fabricam roupas descartáveis, muitas vezes com uso de trabalho escravo, estamos indo na contramão, aproveitando aquilo que já existe”.
Moradora do Bairro Cerâmica, Valdete de Costa Reis, 62 anos, também tem a sustentabilidade como filosofia de vida.
Após se aposentar como técnica de enfermagem, tem se dedicado ao plantio de alimentos em uma chácara no interior de São Paulo.
“Não compro mais comida. Até feijão eu planto”, orgulha-se. Para se vestir, procura adotar a mesma conduta, costurando, customizando e adquirindo peças de vestuário em brechós.
Se os consumidores aprovaram o evento, não menos satisfeitos ficaram os expositores.
“Eu nunca havia participado de uma feira como essa. Geralmente a gente participa de eventos nos quais precisa investir um valor alto para ter a oportunidade de instalar uma pequena arara de roupas. E aqui no Parque Linear temos esse ótimo espaço para expor nossas peças gratuitamente”, declarou a estilista Luiza Moraes, 31 anos, dona do Brechó Pantô.
Formada em Moda há 10 anos, ela trabalhou em grandes varejistas de moda até tomar a decisão de se dedicar totalmente ao brechó, há cerca de dois anos.
Para a estilista, que frequentava brechós desde a adolescência, em busca de um consumo mais sustentável, trabalhar no varejo era um “conflito moral”. “Hoje eu acredito 100% no que faço”.
Além de fazer um trabalho de curadoria, buscando as peças que mais se identificam com sua marca, ela ainda pode exercer seu talento como estilista produzindo novas peças dentro do conceito de upcycling, também chamado de “transmutação”: a transformação de uma peça em algo novo, a partir do reaproveitamento criativo de materiais que seriam descartados.






