Uma articulação liderada pelo deputado Gilmaci Santos (Republicanos), líder do governo Tarcísio de Freitas na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), derrubou a sessão da Comissão de Assuntos Metropolitanos nesta quarta-feira (3).
O colegiado colheria o depoimento do presidente da Sabesp, Carlos Piani, convidado a prestar esclarecimentos sobre os sucessivos acidentes operacionais e o reajuste de tarifas após a privatização da companhia.
Após três tentativas frustradas de convocação por parte da comissão, Piani compareceu ao parlamento paulista.
No entanto, em uma manobra regimental para inviabilizar os trabalhos, a base governista retirou os parlamentares do plenário, impedindo que se atingisse o quórum mínimo de seis deputados para a abertura formal dos trabalhos, na ocasião cinco parlamentares estavam presentes.
Diante do esvaziamento, o presidente da Sabesp deixou o local sem ser interpelado.
O encerramento abrupto da sessão evoluiu para um bate-boca generalizado.
A presidente da comissão, deputada estadual Ana Carolina Serra (PSDB), apontou para uma oitiva informal do presidente da Sabesp.
No mesmo instante Gilmaci Santos tentou intimidá-la verbalmente para impedir a condução dos trabalhos, extrapolando o debate político e descambando para o desrespeito institucional e de gênero
Em nota, a parlamentar tucana repudiou a postura do líder governista e classificou o episódio como um ataque que ultrapassa as fronteiras ideológicas.
“O que eu vivenciei é, no mínimo, lamentável. Ainda mais no exercício de meu trabalho na Assembleia Legislativa de São Paulo. O que aconteceu é algo que está acima da política. Quando uma mulher é desrespeitada, não é apenas uma pessoa que é atingida, é uma agressão aos valores que a sociedade humana, mundial, vem construindo ao longo de décadas. O que vivenciei na reunião foi a falta de respeito de um homem com uma mulher. E isso é inaceitável”, afirmou Ana Carolina Serra.
A deputada ressaltou a gravidade de o episódio ter ocorrido no ambiente legislativo, que deveria servir de espelho civilizatório para o Estado.
“Nós vivemos em uma sociedade que avançou muito na luta por respeito, igualdade e dignidade. Não existe mais espaço para comportamentos que tentem constranger, intimidar ou desrespeitar uma mulher em qualquer ambiente que ela se encontre. Mas é ainda mais grave quando isso acontece dentro de uma Casa de Leis.”
Para a bancada do PSDB, a estratégia do Palácio dos Bandeirantes de blindar o comando da Sabesp privatizada acirra os ânimos na Alesp, transformando uma prerrogativa de fiscalização técnica em um embate pessoal.
“Podemos divergir. Podemos ter posições opostas. Podemos fazer debates duros e defender nossas convicções com firmeza, mas nada, absolutamente nada, justifica ultrapassar os limites do respeito. Esse não é um debate sobre esquerda ou direita, sobre governo ou oposição. Não é sobre quem está certo ou errado na discussão envolvendo a Sabesp. Tenho convicção de que a política precisa dar o exemplo: mais respeito, mais equilíbrio e mais civilidade. É isso que a sociedade espera de todos nós”, concluiu a presidente da comissão.
A oposição e blocos independentes na Alesp estudam acionar a Mesa Diretora para apurar a conduta do líder do governo durante a sessão.
A executiva estadual do PSDB também manifestou Nota de Repúdio sobre os acontecimentos na Alesp.
Veja a íntegra do texto.
A Executiva Estadual do PSDB de São Paulo manifesta repúdio à conduta do deputado estadual Gilmaci Santos (Republicanos-SP) durante reunião da Comissão de Assuntos Metropolitanos e Municipais da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), realizada nessa quarta-feira (3/6).
Com o objetivo de impedir questionamentos ao diretor-presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Carlos Augusto Leone Piani, sobre as falhas na prestação de serviço de abastecimento hídrico à população paulista, o líder do governo Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) retirou o executivo da audiência, às pressas e ainda de forma indiscutivelmente desrespeitosa com todos os membros do colegiado, que, simplesmente, exerciam, naquele momento, seus respectivos papéis legislativos.
Ao interromper reiteradamente os trabalhos conduzidos pela presidente da Comissão, a deputada estadual Ana Carolina Serra (PSDB), elevar o tom de voz de maneira desrespeitosa e adotar postura incompatível com a liturgia do cargo parlamentar, Gilmaci Santos ultrapassou todos os limites do debate democrático e do respeito institucional que devem nortear a convivência entre os representantes eleitos pela população paulista.
A violência política de gênero se manifesta justamente quando mulheres são constrangidas, desqualificadas ou desrespeitadas no exercício de suas funções públicas. Não é aceitável que, em pleno século 21, parlamentares mulheres ainda sejam submetidas a comportamentos intimidatórios, misóginos e que buscam enfraquecer a autoridade e a legitimidade na condução dos trabalhos legislativos.
Ana Carolina Serra exerceu, durante todo o episódio, sua prerrogativa regimental de presidir os trabalhos da Comissão, mantendo a serenidade e o compromisso com o bom andamento das atividades parlamentares. O comportamento adotado por Gilmaci Santos afronta não apenas a deputada, mas também a própria Alesp e os princípios de respeito e de civilidade que devem prevalecer no ambiente democrático.
O PSDB São Paulo reafirma sua solidariedade à deputada Ana Carolina Serra. Não haverá Democracia plena no Brasil, enquanto mulheres precisarem enfrentar, além do debate político, atitudes que tentam silenciá-las ou deslegitimá-las no exercício de seus mandatos.






