A pesquisa contou com a participação do neurologista Renato Anghinah, professor titular do Centro Universitário FMABC e referência nacional em neurologia cognitiva e eletroencefalografia.
O trabalho utilizou registros de eletroencefalogramas (EEG) associados a modelos de inteligência artificial para identificar diferenças entre a idade cronológica das pessoas e a chamada “idade cerebral”.
Segundo os pesquisadores, essas discrepâncias podem indicar processos ligados à neurodegeneração, além de refletirem desigualdades sociais e fatores de saúde que impactam diretamente o cérebro.
O estudo analisou a atividade cerebral de 1.228 participantes de 10 países, incluindo indivíduos saudáveis, pessoas com comprometimento cognitivo leve (MCI) e pacientes com doença de Alzheimer ou demência frontotemporal.
A partir da análise das chamadas oscilações alfa do EEG (relacionadas a funções cognitivas como atenção, memória e processamento mental), os pesquisadores observaram que pacientes com doenças neurodegenerativas apresentavam envelhecimento cerebral acelerado em comparação à idade cronológica.
Outro achado considerado relevante foi a constatação de que fatores ligados à desigualdade estrutural tiveram impacto ainda maior sobre o envelhecimento cerebral do que aspectos como escolaridade, cognição e sexo.
De acordo com Renato Anghinah, os resultados reforçam a importância de analisar o envelhecimento cerebral também sob a perspectiva social.
“O estudo conclui que, por meio do EEG, conseguimos demonstrar que o envelhecimento cerebral pode ser diferente dependendo dos níveis de vulnerabilidade social, tanto do ponto de vista econômico quanto educacional e nutricional. Isso é importante, porque permite identificar esse padrão com um equipamento de baixo custo”, destaca.
O pesquisador também ressalta o potencial das descobertas para a formulação de políticas públicas. “É um achado relevante por apontar caminhos para ações que os governos podem adotar em países com condições econômicas adversas”, afirma.
Segundo o neurologista, investir em estudos dessa natureza é fundamental para compreender como as desigualdades sociais impactam diretamente a saúde cerebral da população.
“É importante investir em pesquisas dessa natureza para quantificar o impacto dessas diferenças sociais no envelhecimento cerebral e pensar em soluções para reduzir esse impacto”, conclui.
Os autores apontam que a utilização do EEG como ferramenta de avaliação pode representar um caminho mais acessível e escalável para o rastreamento populacional de doenças neurodegenerativas, especialmente em regiões com poucos recursos e menor acesso a tecnologias avançadas de diagnóstico.
A pesquisa faz parte de um amplo esforço colaborativo internacional envolvendo pesquisadores da América Latina, Europa e Estados Unidos.
“Essa colaboração entre os países vem de longa data. Trata-se de um consórcio chamado Eurolat, composto por mais de 15 países. Tenho a honra de representar o Brasil e o Centro Universitário FMABC”, explica Anghinah.







