quarta-feira, 18 de março

AME Santo André inaugura Sala Lilás para acolhimento de mulheres vítimas de violência

O Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Santo André inaugurou, nesta semana, a Sala Lilás, um espaço dedicado ao acolhimento de mulheres vítimas de violência atendidas na unidade.

A iniciativa chega em um momento de crescimento preocupante dos índices de violência de gênero no país.

Os dados são alarmantes. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 1.492 vítimas.

Em 2023, o número foi de 1.475. A subnotificação, no entanto, indica que a realidade pode ser ainda mais grave.

O AME Santo André atende, em média, mil pacientes por dia, sendo 80% desse total composto por mulheres.

A Sala Lilás foi criada justamente para oferecer a esse público um canal seguro de escuta e encaminhamento.

Profissionais de diversas áreas da unidade foram selecionados e receberam treinamento específico para atuar como “guardiões” do espaço, distribuídos entre os cinco andares do ambulatório, na proporção de dois a quatro por pavimento.

Cada guardião recebeu um crachá de identificação, tornando-se referência para os demais colegas.

Quando outro profissional identificar sinais de violência em uma paciente, poderá acionar um guardião, que conduzirá o atendimento na sala.

Entre as funções desempenhadas estão a escuta qualificada, o preenchimento da notificação compulsória junto ao sistema de vigilância e o encaminhamento para a rede de proteção, que inclui CRAS, CREAS e Delegacia da Mulher, entre outros serviços.

Urgência

Para o diretor-geral do AME Santo André, Dr. Victor Chiavegato, a criação do espaço responde a uma necessidade urgente.

“Infelizmente, temos visto nos últimos tempos um aumento no número de feminicídios. A ideia da sala é que possamos acolher essas mulheres aqui na unidade. Cada dia que passa, vemos que esse número de violência contra a mulher tem aumentado, não só a violência física, mas a psicológica e a moral também”, afirmou.

“Se identificarmos que a paciente precisa de acolhimento, teremos essa Sala Lilás, com profissionais específicos para esse atendimento”, completou.

A deputada estadual Ana Carolina Serra, que acompanhou a inauguração e recebeu uma placa com o título de Embaixadora da Sala Lilás, destacou a importância do equipamento.

“Essa iniciativa é essencial para que possamos aumentar a proteção à mulher vítima de violência. Aqui transitam mais de mil pessoas por dia, e mais de 80% são mulheres que carregam histórias nas quais a violência pode estar presente no cotidiano. E aqui elas vão se sentir seguras para conversar, porque essa escuta é feita por profissionais qualificados, que podem dar o encaminhamento correto”, disse.

“É um espaço simples, mas com grande efetividade no acolhimento. São com pequenas ações como essa que podemos transformar, aos poucos, essa triste realidade.”

A vice-prefeita de Santo André, Silvana Medeiros, também nomeada Embaixadora durante o evento, reforçou a necessidade de ação conjunta entre poder público, empresas e sociedade.

“Para mim, é muito importante. Trabalhar sozinha não faz a diferença. As pessoas precisam se movimentar, o órgão público, as empresas, todo mundo tem que se movimentar para fazer a diferença na vida das mulheres”, declarou. “Ter a iniciativa de montar essa sala significa que as mulheres serão acolhidas no momento mais vulnerável, quando mais precisam.”

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Rita Maria Santos Spontão, coordenadora de Qualidade do AME Santo André e articuladora do projeto, explicou o raciocínio que orientou a criação da sala.

“Quando a mulher está nessa situação, muitas vezes, ela procura o serviço de saúde. É aonde frequentemente ela vai chegar”, disse.

“Que bom que os profissionais tenham esse olhar para identificá-la. Temos aqui uma sala onde é feito o atendimento psicológico, um local reservado, para uma escuta qualificada. E a partir daí, esse contato com a rede, que oferece uma vasta gama de serviços.”

Trabalho conjunto

A criação da Sala Lilás é resultado de um trabalho coletivo que envolveu liderança institucional, engajamento da equipe e articulação com a rede de proteção local

O primeiro treinamento dos guardiões foi realizado na mesma data da inauguração, com duração de aproximadamente duas horas.

A capacitação abordou desde a identificação dos sinais de violência até o mapeamento dos serviços disponíveis na rede para encaminhamento das pacientes.

A equipe de guardiões é composta por profissionais de diferentes funções dentro do AME, incluindo enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, médicos, recepcionistas e funcionários da equipe de higienização, o que garante capilaridade no atendimento em todos os turnos e setores da unidade.

O projeto pretende ampliar os treinamentos ao longo do ano, alcançando toda a equipe do ambulatório.

A meta é que qualquer profissional da unidade, ao identificar uma paciente em situação de risco, saiba como agir e a quem acionar.

Também estão previstas visitas aos serviços da rede de proteção, para que os guardiões conheçam pessoalmente os equipamentos disponíveis no território.

A Sala Lilás do AME Santo André representa um passo concreto na articulação entre saúde e proteção social.

Em um serviço que atende majoritariamente mulheres, o espaço cumpre tanto uma função humanitária quanto uma obrigação legal, ao transformar o ambulatório em um ponto de entrada seguro para mulheres que, muitas vezes, chegam sem verbalizar o que estão vivendo, mas carregando sinais que, agora, a equipe está mais preparada para reconhecer.

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